Futebol feminino: da proibição à falta de investimentos, mulheres resistem e avançam nas conquistas

Os desafios do futebol feminino desde o século dezoito

Futebol é coisa de homem, certo? O Conselho Nacional de Desportos (CND) – órgão administrativo que regulava toda prática de esportes no País, extinto em 1993 – já acreditou que sim. Na década de 60, a modalidade chegou a ser proibida para as mulheres. E levou tempo para a exclusão ser revogada. Só no começo da década de 80 elas puderam voltar a entrar em campo. Uma volta triunfal, que já rendeu ao País medalhas olímpicas, campeonatos pan-americanos e mundial.

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Mas essa é uma história que tem muitos capítulos – e é quase tão antiga quanto o próprio futebol.

Teria começado no século 18 em Londres. No campo, inglesas e escocesas travaram – o ano era 1898 – a primeira partida oficialmente registrada pela Federação Internacional de Futebol.
A Fifa faria registro análago no Brasil somente em 1921. A partida aconteceu em São Paulo entre os times das senhoritas catarinenses e tremembeenses.

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A arquibancada tinha diante de si um espetáculo – mas não propriamente de futebol. Os “torcedores” apreciavam como se estivesse diante de um fenômeno bizarro.

O futebol feminino, aliás, já foi número de palcos circenses na categoria “atração curiosa” – um começo mambembe que ate hoje encontra dificuldades de ser levado a sério, a despeito dos títulos e conquistas. E de ícones vitoriosos como a jogadora Marta, eleita seis vezes a melhor do mundo pela Fifa.

Marta, porém, é personagem rara em uma seara profundamente marcada por baixos investimentos e incentivos.

Do primeiro time feminino de futebol criado no país – o Araguari Atlético Clube, fundado em 1958 em Minas Gerais – até aqui, a maioria dos clubes brasileiros faz apostas baixas na performance feminina nos gramados. O amadorismo dá as cartas.

A maioria absoluta das jogadoras não tem registro em federações ou junto à Confederação Brasileira de Futebol. A exclusão se materializa na ausência de remuneração e patrocínio. E quem consegue se inserir nas folhas dos times ganha – muitas vezes – abaixo do Salário Mínimo nacional.

Os baixos investimentos de hoje reforçam as barreiras históricas erguidas contra o futebol feminino – uma história que reúne lances realmente inacreditáveis. Além da proibição do CND, as jogadoras brasileiras já tiveram sobre suas cabeças peças legais como o Decreto-Lei 3.199, de 1941, que ficou vigente até 1975, proibindo a prática de futebol para as mulheres.

Da exclusão ao podium

Somente em 1996 o futebol feminino foi incluído na lista dos esportes olímpicos. Elas trataram de recuperar o tempo perdido. E a partir daí, a despeito de tantas exclusões e poucas apostas, a pátria de chuteiras (femininas) vem construindo uma história de conquistas e vitórias:

O 4° lugar nas Olimpíadas de Atlanta e Sidney; a medalha de prata nas Olimpíadas de Atenas e Pequim; O Ouro nos Jogos Pan-americanos de 2007; segundo e terceiro lugares na Copa do Mundo de Futebol Feminino.

As conquistas nos gramados impulsionaram movimentos que trabalham para dar visibilidade ao futebol feminino no país.

A Conmebol, entidade responsável pela organização das competições na América do Sul, impôs exigência da composição de equipes de mulheres como requisito para a liberação da participação dos times de homens na Copa das Libertadores.

E a CBF – que criou a Copa do Brasil de Futebol Feminino, buscando difundir o esporte no país e atrair novos talentos – realizou adaptações no campeonato ao criar duas divisões – alimentando o ânimos das atletas e dando impulso às chuteiras femininas.

Mulheres jogam futebol, sim senhor!

Além do Brasileirão das Mulheres, surgiram campeonatos regionais e estaduais fortes, que movimentam o mercado de atletas e viabilizam o surgimento de torcedores. Um deles é o Campeonatos Potiguar de Futebol Feminino.

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O Rio Grande do Norte tem se destacado nas competições femininas. A Arena das Dunas, por exemplo, foi palco da sétima edição do torneio internacional de seleções de futebol feminino das Américas no final de 2015.

Para o deputado federal Fábio Faria (PSD-RN), as mulheres vêm – de fato – conquistando seus espaços no futebol. Mas essa é uma partida que, segundo ele, está longe de ser ganha.

Autor de projeto de lei que cria incentivos para as atletas (PL 1509/19), ele defende que o fator determinante nesse jogo se chama investimentos.

O projeto de Fábio Faria, em tramitação na Câmara Federal, altera a lei do desporto (9.615/98), para garantir que os recursos da Secretaria do Esporte sejam destinados a apoiar o futebol feminino.

“Há mais de cinco mil jogadoras em atividade no país, mas a maioria dos clubes mantêm apenas times amadores de futebol feminino e apenas três desses times assinam carteira das suas jogadoras”, lamentou o parlamentar.

Ele insiste que a falta de estrutura profissional do futebol feminino ainda é desafio a ser vencido. “A possibilidade de utilizar recursos da Lei de Incentivo ao Esporte seria o primeiro passo”, avalia.

Profissionalizar é preciso

Para Fábio Faria, a falta de investimentos se soma ao amadorismo. E um fenômeno alimenta o outro.

Ele explica:

Os campeonatos organizados no país ainda não exigem que os times sejam profissionais. Sob a modalidade amadora, os vínculos entre clubes e atletas permanecem precários.

“É necessário que haja alguma forma de incentivo para que os clubes possam profissionalizar suas atletas, valorizando o esporte como um todo”, argumenta o parlamentar.

Segundo o deputado, as relações trabalhistas mais estáveis e direitos trabalhistas respeitados trazem mais incentivos para o desenvolvimento do esporte.

“O vínculo empregatício é o mínimo que um trabalhador deve ter reconhecido, negar isso a atletas que treinam, se dedicam, participam de competições e defendem as cores do Brasil mundo afora é um crime”, finaliza o deputado, cristalizando – com seus dados e impressões – o cenário (ainda) proibitivo do futebol feminino em pleno século XXI.

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